terça-feira, 7 de julho de 2009
A Verdade (Carlos Drummond de Andrade)
Mas só deixava passar
Meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
Porque a meia pessoa que entrava
Só trazia o perfil de meia verdade,
E a sua segunda metade
Voltava igualmente com meios perfis
E os meios perfis não coincidiam verdade...
Arrebentaram a porta.
Derrubaram a porta,
Chegaram ao lugar luminoso
Onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
Diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual
a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela
E carecia optar.
Cada um optou conforme
Seu capricho,
sua ilusão,
sua miopia.
quinta-feira, 4 de junho de 2009
Música: TOCANDO EM FRENTE (Almir Sater e Renato Teixeira)
Deixo com vocês a maravilhosa Maria Bethânia para interpretar esse hino à vida!
quarta-feira, 6 de maio de 2009
El Condor Pasa - Um brinde do povo peruano ao mundo
A história transcorre no assentamento mineiro Yapaq de Cerro de Pasco, Peru, e constitui-se uma obra de denúncia social. É a tragédia do enfrentamento de duas culturas: a anglo-saxônica e a indígena. A exploração de Mr. King, dono da mina, tem sua culminância na vingança de Higínio, que o assassina. Mas, para substituí-lo, chega Mr. Cup. E a luta tem que ser reiniciada, e o condor que voa nas alturas é o símbolo da desejada liberdade (Fonte: Wikipedia).
Existem várias traduções para a letra, da mesma forma que há inúmeras interpretações musicais pelo mundo afora. Só para citar algumas: Paul Mauriat, Gigliola Cinquetti (1970), Raices de América, Simon & Garfunkel, Banda composta por 12 Garotas Chinesas, Plácido Domingo... Todas belíssimas. El Condor Pasa, para mim, é uma das músicas mais belas do mundo, seja cantada ou instrumental, interpretada por voz(es) de qualquer cultura. Aliás, ela transcende tempos, línguas e culturas. Patrimônio da Humanidade!
Deixo aqui uma dessas versões: a instrumental, de Paul Mauriat.
Espero que gostem.
terça-feira, 28 de abril de 2009
Rosa
Sempre fui uma pessoa de muita sorte. Começou quando nasci, pois enquanto todas as crianças tem apenas uma mãe, eu tive duas. Uma delas, a que me criou e me ensinou as artes da vida se chamava Rosa. Rosa em flor, em botão. Um dia, murchou e morreu, como todas as flores-rosa que também não vivem muito. Só o suficiente para espalhar a sua presença e deixar sua lembrança. Que vira saudade, como a que sinto agora.
Rosas são flores fortes mas sensíveis, têm espinhos e delicadeza. Minha mãe também era assim. Mulher à frente de seu tempo, pobre de dinheiro, rica em ética, idéias adiantadas criou e fez sua filha mulher. Se sou o que sou, devo a ela, apesar de ter-me deixado tão cedo. Partiu. Uns disseram-me que foi para o céu. Acho que sim, afinal, para onde vão as mães pobres, que só amaram, trabalharam, criaram filhos, choraram e venceram? Mães assim não tem pecados, não tem culpas e precisam de um lugar tranqüilo para descansar. Acho que esse lugar é o céu...
(Fotografia: Maria de Fátima Garcia)
domingo, 5 de abril de 2009
Do inverno brutal em Glasgow
despertam as plantas adormecidas,
rasgando os primeiros brotinhos
no tamanho de um grão de arroz.
Esse desabrochar de vida consta numa mensagem,
Vinda dessa terra tão inóspita e longínqua
E me reporta:
Ao cheiro da hortelã macerada com açúcar
À espera do leite tirado na hora,
Em manhãs frias de inverno,
Envolta pela névoa suave
Com as plantações de feijão,
Capim de pasto, laranjeiras, tangerinas,
Pessegueiros, Ah! Estes suas flores
Eram maravilhosas e perfumadas,
Pimenteiras, apreciadas pelos caprinos, a
Devorá-las enquanto pulavam e berravam,
Sem com isto parar de comê-las.
Tudo encharcado pelo orvalho gelado e
Coberto pela serração
Vinda do Rio Pardo com suas águas barrentas,
Ancoradouro de uma canoa, a fazer;
Travessia para a margem de lá,
Na fazenda Entre Rios,
Onde havia a escola, que íamos a pé.
Por um caminho ladeado pela pródiga natureza,
A oferecer
Cajus, araçás, marolos, pitangas e gabirobas,
Num misto de perfumes e sabores indescritíveis
Convivendo com:
Emas, veados, serpentes, quatis, tatus e tantos outros.
Na margem de cá a magia do sítio,
Com a casa de taipa, branquinha de cal;
Acolhendo todos ao redor de seu fogão à lenha,
A estalar e espalhar fagulhas das labaredas,
Em doces cantigas
A embalar
Os desejos de calor e alimento...
Ah! Já faz tanto tempo,
Mas posso sentir,
O cheiro da hortelã como se fora neste instante.
Mas cadê o tempo?
Meu Deus! O que significa esse retorno à infância?
Memória de cheiros perdidos
Junto com algo, que
Talvez, nunca mais tenha encontrado...
(Poema: Maria Aparecida Damin
Fotografia: Maria de Fátima Garcia)
segunda-feira, 30 de março de 2009
O ninho (Parte I)
Minha casa anda mesmo prenhe de vida e sensualidade.
A orquídea branca se oferecendo ao capim cidreira,
Duas pombinhas, na verdade, rolinhas
Um casalzinho
Decidiram fazer seu ninho de amor
No vaso da samambaia de metro
A bailar no teto da varanda-garagem!
Depois da reforma,
Mudei o piso pra branco, levemente esverdeado.
Mantive os vasos de plantas
E coloquei um sofazinho com duas poltronas de vime amarelo-sol.
Agora!
Ficam os dois "marido e mulher" deitados no vaso...
A presença dos moradores e o barulho das crianças
Não os incomoda!
Estou numa encruzilhada!
Incompatibilidade da água com o ninho!
Se os deixo continuar
Até botarem seus ovinhos,
Criarem seus filhos em idade de alçar vôos
A samambaia secará.
Espantá-los nem pensar
Quando digo:
Esse não é o lugar ideal pra criar família
Imediatamente ouço:
"Coitadinhos, mãe! Deixa eles aí!"
Minha amiga, o que faço?
A quem devo sacrificar?
Aqui tem muita coisa a ser eternizada nas lentes da minha objetiva ....
Amiga diz:
Ninguém!
Coloque água na samambaia normalmente
Quando fazem seus ninhos em árvores ao ar livre
Chegam o vento e a chuva
E eles também não se importam
Samambaia e ninho em perfeita harmonia
Na varanda-garagem ou ao ar livre
(Maria Aparecida da Silva Damin e
Maria de Fátima Garcia)
(Fotografia: Maria de Fátima Garcia)

